Encosta, mas não atravessa
Um pedaço mínimo de espelho é sempre o espelho todo
Clarice Lispector, Água-viva
Um pedaço mínimo de corpo é sempre o corpo todo. Lugar absoluto, o corpo se realiza em constante exercício metonímico onde parte e todo se formam e informam: olhamos com as mãos na mesma medida em que pensamos com os pés. O corpo é o espaço-confessionário que testemunha nossas experiências e é através dele, enquanto arquivo-movediço que coleciona e transforma, que compartilhamos a nós mesmos com os outros.
Em sua primeira exposição individual, Lia Soares desenha com o corpo todo e nos convoca a reorganizar a postura. Com gestos densos e carregados de gravidade, a artista corporifica formas ao mesmo tempo em que coisifica os corpos, fazendo uso de altos contrastes, sombras marcadas e dobras acentuadas. Lia compõe cenas dramáticas e tensas, instantes suspensos que exacerbam e escancaram sensações sobre a pele. O enquadramento das pinturas é um ponto focal da sua produção: o trabalho se oferece como espelho e esses corpos transbordam os limites da tela — suam, vibram, amam, e nos chamam para dançar.
Duas séries (partes) compõem a presente exposição (todo). Na primeira, Fricção (2022), os pares de corpos se desintegram na mesma medida em que se fundem, o atrito se dá tanto a nível atmosférico quanto molecular. Produzindo durante a pandemia, Lia traduz um flerte fatal entre corpos condenados à distância que, mesmo enrijecidos pelo medo, tremem de vontade. A gravidade vence, como nos casos de 01/01, Magnólia e Carnaval, e esses corpos geológicos sedimentam uns sobre os outros, amontanhando-se. Conversa e Calor, por outro lado, escancaram os limites dos territórios sustentados por um abismo.
Entre mares e terras-à-vista, Lia navega o próprio corpo como lugar experimental da pintura. Como quem troca o peso de uma perna para outra, a artista balança entre as noções de alteridade/identidade, fração/unidade, limite/deslimite. Ela joga com as inexatidões próprias ao exercício de tradução do seu corpo em desenho. Nesse sentido, os autorretratos de Espelho (2024) soam como uma resposta à série anterior: frente ao corpo que se desfaz em outro, ela traz o próprio corpo enquanto monolito, matéria maciça de estrutura milenar.
Com um convite e um aviso, Encosta mas não atravessa reitera a fronteira entre peles — sejam essas as do corpo, do desenho ou da tela —, ao mesmo tempo em que provoca sua ruína. Em um bailar erótico, espectamos esses corpos que desejam e caçamos neles algo de nós, nem que seja um pedaço. É nesse reflexo que ouvimos o aviso e vemos o que há de intransponível: na medida em que busco meu corpo fora, ele mesmo me lembra de sua qualidade absoluta; o corpo que vejo adiante já não é mais meu, pois está sob outro céu.
Exposição de Lia Soares · Texto: Julia Lara · Performance: Jacque Jordão · Curadoria: Tamara Crespin