Culto
Deriva. Voyeurismo. Acaso. Encontro. Registro. São muitas as palavras-chave mobilizadas pelo trabalho de Tamara Crespin. A simples leitura dos termos acima destacados indica a interdisciplinaridade que sua prática atravessa. Com formação em arquitetura, não me parece gratuita a escolha de Crespin por nomear seu Culto especificamente como uma deriva, não como flânerie baudelairiana ou deambulação surrealista. A terminologia deriva foi cunhada pelo situacionismo, movimento de forte repercussão no urbanismo.
O principal expoente da Internacional Situacionista, Guy Debord, busca saciar seu desejo por experienciar a cidade a partir daquilo que chamou “situações construídas”, que consistem em “momentos de vida criados de forma concreta e deliberada”. O fluxo convencional imposto pela vida citadina estabelece certas determinações, como o espaço em que se circula e o modo como se faz isso, sendo necessário criar estratégias para não se dobrar à naturalização dessas limitações e assim transcender as imposições da dinâmica social do espaço urbano. Nessa esteira, Crespin se coloca em situação, aberta e atenta ao que pode ocorrer ao seguir à risca o programa traçado por ela própria. É desse modo que adentra um templo durante um culto que de outro modo dificilmente tomaria parte.
Se a contribuição conceitual dos situacionistas é indiscutível, o mesmo não se pode dizer da produção artística derivada de suas ideias. O resultado mais conhecido da psicogeografia — nome dado ao procedimento de pesquisa que resulta da deriva — é a colagem do mapa de Paris elaborado por Debord. É a generosidade do acaso que proporciona uma camada a mais de complexidade à experiência de Crespin: o registro. O culto evangélico que ela acompanhou foi transmitido ao vivo numa rede de televisão, com sua imagem difundida nacionalmente — e até internacionalmente, se considerada a transmissão por redes sociais e, evidentemente, o nome da instituição, Igreja Internacional da Graça de Deus. Assim, o registro de sua deriva extravasa o relato subjetivo, obtendo um registro concreto realizado por terceiros e alheio à sua intenção — é como se as posições se invertessem, de voyeur ela passasse ao sujeito exibido, de alguém que busca o encontro se tornasse a pessoa encontrada.
Ainda que Culto evoque a obra de nomes como Vito Acconci e Sophie Calle, diz muito de uma experiência particularmente brasileira: a religião que em alguns anos será dominante no país com os cultos dominicais, o acolhimento aos não fiéis, a apropriação de símbolos, a gramática da arquitetura dos templos, o discurso de prosperidade, a compra de horários em canais de televisão aberta por valores milionários, a espetacularização da fé… Um suco de Brasil, mas não servido numa sala de aula asséptica que fala do país como se de uma realidade distante, e sim experimentado do olho do furacão.
Toda a prática de Crespin está ancorada em sua curiosidade. Mas essa curiosidade transbordante que sustenta seu deslocamento se direciona a que exatamente? Afinal, o que Tamara Crespin perseguia quando saiu de sua casa? A curiosidade só formula a pergunta, a resposta é o próprio acontecimento. O que surge daí é espanto — dela e de nós que testemunhamos incrédulos os desdobramentos que um ato aleatório pode desencadear.
Texto: Felipe Marcondes · Performance: Tamara Crespin · Pintura: Clara Almeida