todo-mundo art book fair
No ofício de fazer livros, uma série de inquietações constantes surge sobre por que fazemos o que fazemos e onde reside sua potência de ação. Os dispositivos da impressão parecem, por vezes, não ser compatíveis com os ritmos sob os quais operam os sistemas artísticos. A publicação como prática em processo nos permite especular sobre esses espaços de defesa que possibilitam a circulação de imaginações radicais cujo espaço-tempo é gradualmente deslegitimado. No entanto, o que, naquilo que fazemos, em como fazemos e com quem fazemos, reproduz práticas de exclusão? Se a publicação é esse espaço intermediário dentro dos sistemas de arte, como romper a bolha?
Em um presente em que tudo está fora de si, em que os contextos que nos atravessam fazem com que os futuros escapem por entre nossos dedos, nossos corpos cansados têm um olho aqui e outro ali. O que é que (não) está à vista? todo-mundo nasce de uma busca pelos pontos cegos e lugares-comuns que habitam o ato de publicar como prática política. Aqueles pontos cegos que, em sua latência, nos permitem elucidar os traços coloniais com os quais seguimos operando e que reverberam em nossa prática editorial. Aqueles lugares-comuns que, em seu ritmo, nos permitem abraçar o incerto, para que, nas fissuras da diferença, possamos nos abrir ao outro e fazer nossas poéticas convergirem.
Assim, por que fazer outra feira de livros de arte? A quem esses espaços servem e quem fica de fora? O que implica que ela aconteça no contexto de uma feira de arte em uma metrópole pertencente aos circuitos legitimados do mercado? Como podemos reimaginar os espaços editoriais para revisar e mediar os exercícios de poder perpetuados pelo centro? todo-mundo surge de um desejo intenso de pensar essas questões junto à feira de livros de arte como um espaço de encontro, troca e colaboração, onde relações, inspirações e inquietações efervescem em comunidade. Nesta primeira edição, convidamos os agentes do campo do livro a buscar as rupturas em nossos trabalhos para imaginar, ao menos por um instante, um espaço para além de nossa bolha — não para permanecermos de braços cruzados, mas para colocar em diálogo outras formas de estabelecer vínculos e ativar a vida contida na matéria impressa.
Essa iniciativa nasce do desejo da Temblores Publicaciones — casa editorial lançada em 2017 pela revista Terremoto — de estimular espaços editoriais de diálogo em torno das práticas artísticas nas Américas, seus agentes e as pontes construídas entre eles.